O problema da poliginia é exemplar disso: instituição central para os Tupinambá – e no contexto interétnico colonial – e abominada pelos jesuítas; encarada por nossa sensibilidade ocidental como algo que desvaloriza a figura feminina e que serve inclusive como índice de domínio masculino, a poliginia pode ser revista à luz de trabalhos mais recentes que mostram o interesse demonstrado pelas esposas mais velhas no aumento do número de esposas de seus maridos, mulheres mais jovens sobre as quais exercerão autoridade e controle (2016, p. 47).
Em outras palavras, há uma história da poliginia a ser escrita e pensada a partir do ponto de vista das mulheres e, dessa perspectiva, esse modelo de organização familiar tupinambá também reforçava o poder das mulheres mais velhas, que passavam a liderar o coletivo de esposas e filhas do grupo familiar e sua força de trabalho na agricultura, manufatura e trabalho doméstico. Mas, de acordo com João Fernandes (2016), é nas festas e rituais antropofágicos que o poder das mulheres pode ser mais bem apreciado e entendido, embora ainda bastante obscurecido na bibliografia crítica.
Disso dependia o sucesso da evangelização, que era medida pela quantidade de indígenas convertidos e batizados, e não se podiam batizar homens e mulheres adultos bígamos ou polígamos. Assim, desde o desembarque, os jesuítas dedicaram boa parte de seus esforços no combate à poligamia, realizando casamentos ao modo cristão na expectativa de que seriam duráveis, inquebrantáveis e únicos. Muito cedo, todavia, perceberam que a tarefa era dificílima.
Os grandes chefes com quem os missionários tinham que negociar possuíam muitas mulheres, inclusive os chefes portugueses. Exemplo disso foi Diogo Álvares, também conhecido como Caramuru, que viveu entre os Tupinambá, teve muitas mulheres e tornou-se o cabeça de extensa linhagem na Bahia (Metcalf, 2005, p. 106-7). Por mais que os missionários enxergassem a poliginia como “luxúria”, “concupiscência”, “desregramento moral” etc., ter muitas esposas e filhas era, como anteriormente mencionado, uma das condições necessárias para alcançar poder político e econômico e, naquele momento, isso era válido para indígenas e não indígenas.
O lugar onde o poder e o exercício das funções sociais precipuamente masculinas se realizavam era externo à aldeia: nas guerras, na captura de prisioneiros, na diplomacia, na caça e na pesca. As mulheres, por sua vez, dominavam o espaço doméstico da aldeia: plantavam e colhiam, cuidavam da alimentação familiar, realizavam atividades artesanais em olaria e cestaria, cuidavam da prole, preparavam cauim, organizavam e preparavam as festas e desempenhavam outras variadas atividades domésticas (Fernandes, 2016). Se tomarmos como referência uma parte importante dos diferentes povos indígenas da América, as diferenças de gênero entre homens e mulheres existiam, determinavam as funções e hierarquias sociais e criavam um patriarcalismo de baixa intensidade, porque permitia frequentemente o trânsito entre os gêneros e a circulação de poder (Segato, 2012, p. 117).
MOREIRA, Vânia Maria Losada. Mulheres indígenas, conquista espiritual e patriarcalismo colonial. Mneme – Revista de Humanidades, [s. l.], v. 28, n. 51, 2025.
Texto de Apoio 2
Das margens ao centro: mulheres indígenas nas esferas de poder contemporâneo (1988-2023).
No contexto dos espaços de poder, amplamente dominados por homens, as mulheres indígenas enfrentam uma dupla marginalização. Além da discriminação de gênero, elas são alvo de dinâmicas de opressão que incluem tanto a colonialidade do poder quanto a colonialidade de gênero. Para Aníbal Quijano (2005), a colonialidade do poder é “baseada na imposição da idéia de raça como instrumento de dominação foi sempre um fator limitante destes processos de construção do Estado-nação baseados no modelo eurocêntrico” (Quijano, 2005, p. 136). Ele reafirma esse conceito na coletânea “Epistemologias do Sul” (2009), apontando que a colonialidade do poder estabelece uma hierarquia racial e étnica, instituindo um sistema de dominação que permeia todas as esferas da vida, das práticas cotidianas às estruturas sociais mais complexas. Esse controle, segundo Quijano, ultrapassa os aspectos materiais, atingindo as dimensões subjetivas e afetando a maneira como os indivíduos percebem o mundo e a si mesmos. Neste panorama, as mulheres indígenas enfrentam não só uma opressão múltipla, mas também a subjugação por uma hierarquia social que continuamente as empurra para as margens, como também argumentado por Crenshaw. Elas vivem sob um sistema que, ao mesmo tempo, invisibiliza e silencia suas vozes, enquanto limita suas possibilidades de acesso e participação nos espaços de poder e decisão. Essa marginalização também reforça o estigma e a desvalorização cultural, desafiando a presença dessas mulheres em cargos de liderança e promovendo discussões sobre as tensões entre suas identidades e as estruturas de poderes dominantes.
Dentro dessa discussão destacamos o termo “patriarcado de baixa intensidade”, criado pela antropóloga Rita Segato, com o objetivo de descrever a forma como se organiza as relações de gênero em sociedades pré-coloniais, que embora sofram com o patriarcado e o processo de colonização, eram distintas do sistema colonial moderno, ou seja, a colonização transformou as estruturas de gênero pré-existentes, exacerbando as desigualdades e a violência contra as mulheres, chegando assim ao “patriarcado de alta intensidade” (Segato, 2010). Além disso, esse patriarcado, quando comparado ao sistema colonial de dominação, discutido por autores como Quijano, apresentava uma organização menos opressora em sua essência. Para abordar o sistema colonial moderno, recorremos ao pensamento da socióloga e feminista María Lugones (2014), que desenvolveu o conceito de “Colonialidade de gênero”. Esse conceito se refere aos processos de colonização e dominação implementados pelos europeus sobre os povos indígenas das Américas. Lugones argumenta que o entendimento de gênero nas sociedades ocidentais contemporâneas é, em grande parte, um produto da colonialidade. Assim, o colonialismo não apenas impôs novas estruturas políticas e de poder, mas também transformou profundamente as relações sociais e de gênero nas sociedades indígenas, introduzindo normas e divisões que antes não faziam parte das dinâmicas desses povos.
Lugones (2014, p. 942) destaca que “o sistema de gênero é não só hierárquico, mas racialmente diferenciado, e a diferenciação racial nega humanidade e, portanto, gênero às colonizadas”. Com isso, antes da colonização, muitas culturas indígenas possuíam concepções variadas de gênero e sexualidade que diferiam profundamente das estruturas impostas pelo colonialismo. A introdução de categorias rígidas, como “homem” e “mulher”, e de hierarquias de gênero representou uma mudança radical e forçada nas sociedades indígenas, redefinindo suas relações e dinâmicas sociais. Lugones observa que essa imposição não foi totalmente aceita, e as mulheres indígenas reagiram com formas notáveis de resistência e resiliência, desafiando e subvertendo a colonialidade de gênero. A resistência indígena se reflete nas lutas atuais das mulheres pela preservação de suas terras, culturas e identidades, em que elas rejeitam as narrativas coloniais e patriarcais, reafirmando suas próprias tradições e saberes ancestrais. Lugones identifica esse processo como uma forma de “descolonização,” na qual as comunidades indígenas não apenas buscam recuperar o que foi perdido, mas também resistem ativamente às pressões coloniais contemporâneas.
A análise de Lugones incorpora uma perspectiva interseccional, enfatizando que as opressões sofridas pelas mulheres indígenas não podem ser explicadas isoladamente como questões de gênero ou raça. Em vez disso, essas categorias se sobrepõem, interagindo com outras formas de dominação, como o imperialismo e o patriarcado, o que reforça múltiplas camadas de opressão. Nesse contexto, as estratégias de resistência das mulheres indígenas devem abordar todas essas dimensões simultaneamente, enfrentando a complexidade de um sistema que procura subjugá-las em diversas frentes.
MARCOLINO, Maria Luisa Soares. Das margens ao centro: mulheres indígenas nas esferas de poder contemporâneo (1988-2023). Orientadora: Cláudia Cristina do Lago Borges. 2026. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Histórica) – Programa de Pós-Graduação em História, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2026. Leia na íntegra em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37776 (acesso em 30 de abril de 2026).
A história das mulheres indígenas no Brasil foi, por muito tempo, narrada sob uma ótica androcêntrica e colonial, que as reduzia a figuras passivas ou silenciadas no processo de conquista. No entanto, estudos recentes da Etnohistória e os conceitos de Colonialidade de Gênero (María Lugones) revelam uma realidade distinta: as mulheres sempre foram pilares da organização social, política e econômica de seus povos. Se no período colonial o “patriarcado de baixa intensidade” (Rita Segato) permitia formas de trânsito de poder feminino dentro das aldeias como o controle das esposas mais velhas sobre o trabalho agrícola e ritos antropofágicos, a modernidade colonial impôs hierarquias rígidas que aprofundaram a violência e a exclusão dessas mulheres. Hoje, o movimento de mulheres indígenas representa uma das frentes mais potentes de descolonização no Brasil, ocupando as universidades, as cadeiras políticas e as artes, provando que a luta pela terra é indissociável da luta pelos seus corpos e identidades.
Para realizar esta atividade, você deverá utilizar a ferramenta Canva para criar um material gráfico (em formato de e-book) que contenha as duas partes descritas a seguir:
PARTE 01 – Análise Dissertativa e Crítica
Produza um texto dissertativo-argumentativo (entre 15 e 30 linhas) articulando os Textos de Apoio I e II e o livro da disciplina. Sua análise deve:
- a) Estabelecer uma relação histórica: Compare o papel da mulher indígena no período colonial (destacando sua importância na organização familiar e rituais) com os desafios e o protagonismo enfrentados na sociedade brasileira atual.
- b) Abordar a Colonialidade: Discuta como a transição do “patriarcado de baixa intensidade” para a “colonialidade de gênero” impactou a vida das mulheres originárias.
- c) Propor Soluções: Conclua sua análise sugerindo duas ações governamentais concretas que possam contribuir para a redução da violência de gênero e o fortalecimento dos direitos das mulheres indígenas hoje.
PARTE 02 – Biografia de Referência: Mulheres que Inspiram
Escolha uma personalidade feminina indígena da atualidade e organize sua biografia contendo:
Identificação: Nome da personalidade, etnia, data de nascimento e local de origem (Estado e Aldeia/Reserva).
Trajetória e Formação: Formação acadêmica e principais marcos de sua carreira.
Contribuição Intelectual/Ativista: Livros publicados, participação em eventos internacionais (como a COP) ou rodas de conversa.
Projetos e Atuação Atual: Descrição dos projetos em andamento e seu papel principal hoje (política, acadêmica, artista, ativista, etc.).
Conexão Digital: Insira o @ do Instagram e um print da tela inicial da página da personalidade escolhida.
Galeria Visual: Insira, no mínimo, três fotos da personalidade que ilustrem sua trajetória.
Justificativa Pessoal: Escreva um breve texto (até 10 linhas) explicando por que você escolheu essa liderança e qual a importância do legado dela para o ensino de História.
Orientações:
Para a realização desta atividade MAPA você deverá obrigatoriamente usar o recurso CANVA.
Fazer o seu login gratuitamente e acessar o recurso.
Ir em “O que você quer criar” e digitar na lupa de busca o termo “e-book”.
Com este click vão surgir muitas opções de templates que você pode escolher.
Escolha um template gratuito para organizar seu “e-book”.
Na primeira página faça uma capa contendo: nome completo, polo, registro acadêmico e um título para o seu texto (no centro da página).
Na segunda página você deverá escrever a Parte 01 (seu texto argumentativo/dissertativo, com no máximo 30 linhas).
Na terceira página você vai começar a organizar a Parte 02 (biografia da personalidade feminina escolhida para elaboração de seu e-book)
Na quarta página é imprescindível que tenha as referências bibliográficas (os autores, livros, artigos, reportagens, páginas acessadas para a realização deste e-book).
Concluído seu e-book, você vai no canto superior direito clique em “Compartilhar”, vai em “baixar”, depois em “formato de arquivo”, procure a opção “PDF Padrão” e conclua a ação no botão “baixar”.
Prontinho! Seu e-book estará salvo em seu computador e/ou dispositivo móvel.
Agora é só anexar no espaço reservado para o envio da Atividade Mapa, concluir e finalizar.
Nossa equipe é composta por profissionais especializados em diversas áreas, o que nos permite oferecer uma assessoria completa na elaboração de uma ampla variedade de atividades. Estamos empenhados em garantir a autenticidade e originalidade de todos os trabalhos que realizamos.
Ficaríamos muito satisfeitos em poder ajudar você. Entre em contato conosco para solicitar o seu serviço.
